“Cuidar de quem cuida é uma responsabilidade pública”: Silvane Ferraz e o projeto de cuidado em Belém
29.10.2025
Nascida e criada entre Belém e região metropolitana, Silvane Ferraz cresceu observando o que mais tarde se tornaria uma das causas de sua vida: a sobrecarga das mulheres em torno do trabalho de cuidado. A mãe e a avó, mulheres que trabalhavam fora e ainda sustentavam a casa, foram suas primeiras referências de força e também de desigualdade. “Elas cuidavam de todos e não deixavam a peteca cair, mas quem cuidava delas?”, costuma perguntar.
Ainda adolescente, Silvane começou a trabalhar com os pais no comércio da família. Formou-se em Direito e Administração, casou-se, teve dois filhos e, durante muitos anos, atuou nos bastidores dos negócios da casa e da clínica do marido. Até perceber que a mesma lógica que confinava tantas mulheres ao cuidado sem reconhecimento também se repetia ali. “Sempre fui de agir, mas estar nos bastidores começou a me incomodar. Foi quando percebi que só com mulheres ocupando espaços de poder é que começaríamos a avançar na criação de políticas públicas para mulheres.”
Em 2023, Silvane se tornou a vereadora mulher mais votada da cidade. Pouco depois, foi nomeada a primeira Secretária Municipal da Mulher, inaugurando uma nova fase na política local. Quando assumiu a Secretaria, Silvane fez um compromisso claro: transformar o cuidado, historicamente invisível, em pauta central de governo. “Cuidar de quem cuida é uma responsabilidade pública”, afirma.
O cuidado como projeto político
À frente de políticas inovadoras, a secretaria de Silvane assumiu a liderança do Comitê Municipal de Políticas de Cuidado de Belém, uma iniciativa originada como resultado do Projeto Ver-o-Cuidado, implementado em parceria com a ONU Mulheres. A iniciativa marcou um ponto de virada na história da cidade: Belém se tornou a primeira cidade do Brasil a iniciar a implementação de um sistema municipal de cuidados, reconhecendo oficialmente essa atividade como um pilar da economia e da vida social.
O Comitê reúne representantes do governo e da sociedade civil na construção de uma agenda comum para valorizar quem cuida. É um espaço vivo de escuta e formulação, onde cuidadoras, trabalhadoras domésticas, profissionais da saúde e lideranças comunitárias compartilham experiências e constroem caminhos para transformar a prática cotidiana do cuidado em política pública estruturante.
Para Silvane, o avanço simboliza uma mudança de paradigma: “Fico muito feliz com essa parceria com a ONU Mulheres, que pensou, criou e confiou a nós a execução desse projeto. É uma grande responsabilidade e também um compromisso enorme da Secretaria da Mulher, que tem o dever de elaborar políticas públicas que façam a diferença na vida das mulheres. Belém ainda precisa evoluir muito. A gente vive numa sociedade muito machista e só vai mudar com políticas públicas voltadas para as mulheres.”
Um movimento que ecoa em todo mundo
Em 2023, a ONU instituiu o Dia Internacional do Cuidado, celebrado em 29 de outubro, como forma de reconhecer a importância desse trabalho para a sustentabilidade da vida e das economias. Em Belém, o estudo diagnóstico do projeto Ver-o-Cuidado mostrou que as mulheres da capital paraense dedicam, em média, 11,7 hora por dia, somando atividades remuneradas e cuidados não remunerados. Essa realidade evidencia a sobrecarga e a importância de políticas que reconheçam e redistribuam esse trabalho.
A Representante Interina de ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, reforça que “transformar os modelos econômicos e os sistemas de cuidado é uma pré-condição para alcançar a igualdade de gênero e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”. O projeto Ver-o-Cuidado foi parte dessa transformação: uma iniciativa local que dialogou com compromissos globais e inspirou políticas integradas em todo o país.
Belém e a agenda do futuro
Enquanto o mundo se prepara para a COP30, que será sediada em Belém, Silvane vê no evento uma oportunidade histórica para colocar as mulheres amazônidas no centro da agenda climática e social. “Não há justiça climática sem igualdade de gênero. Cuidar das pessoas e cuidar do planeta é parte da mesma luta”, afirma.
Sua visão ecoa um chamado mais amplo: o de que políticas de cuidado são também políticas ambientais. O fortalecimento de redes de apoio, a promoção da autonomia econômica das mulheres e o reconhecimento do trabalho doméstico como essencial à sustentabilidade são pilares de uma sociedade verdadeiramente justa.
Dos bastidores ao centro da cidade
Silvane costuma dizer que sua trajetória é a de quem saiu dos bastidores para ocupar o centro da cena. Mãe, gestora e mulher, ela simboliza um movimento que cresce em todo o país: o das mulheres que fazem do cuidado um ato político.
“Durante muito tempo, as decisões eram tomadas por quem nunca precisou escolher entre trabalhar e cuidar de um filho doente. Por isso precisamos estar lá, nas câmaras, nas secretarias, nas prefeituras, para garantir que o cuidado seja objeto de políticas públicas.”
Neste Dia Internacional do Cuidado e Apoio, a história de Silvane Ferraz ajuda a revelar o que muitas vezes permanece escondido. O cuidado não é um gesto espontâneo nem um valor simbólico. É trabalho. Um trabalho que move economias, sustenta as famílias e garante o funcionamento da vida cotidiana, mas que segue invisível e sem o devido reconhecimento. Em Belém, a experiência do projeto Ver-o-Cuidado mostra que é possível mudar essa realidade quando o Estado decide olhar para o cuidado como parte da estrutura produtiva da sociedade. Valorizar quem cuida é mais do que uma reparação histórica. É o caminho para construir um futuro em que o cuidado seja visto como o que ele sempre foi: o centro que mantém o mundo em movimento.
